quinta-feira, 17 de março de 2011

Manuel Montt

01/01/2011

Primeiro choque: O Duty free chileno se encontrava fechado! Peraí, tem coisas que não podem parar: polícia, ambulância, bombeiro e o duty free. Como assim? Preguiçosos!
Inclusive, todos devem ficar ligado ao táxi do aeroporto. Tentaram (e conseguiram) passar a perna em mim. O esquema é o seguinte: o preço sempre é combinado. Do metro até o centro, sai em média 15 mil pesos chilenos, sem importar a quantidade de pessoas dentro do taxi. No meu caso, eu fiz isso, mas o motorista queria 15 mil por pessoa, e ficou me enrolando pois não tinha especificado que era para os dois até eu dar mais 15 mil. Não engoli isso bem até agora.

Como cheguei um dia antes do acertado com a empresa de Intercâmbio, passei o primeiro dia em um hotel chamado Chilhotel. Simples, ótimo, barato e bem próximo ao metrô Manuel Montt. Fica no bairro de Providência, que hoje está em alta. Quando passeei pelas ruas, pela manhã, acabei encontrando um chileno muito simpático que havia morado em Manaus a mais de 40 anos e nunca mais retornou. A partir daí vi o quanto os chilenos gostam dos brasileiros (ainda bem!). Sempre fui muito bem recebido e bem informado.



Por cerca do hotel, além do metro, tem o Centro de Turismo, onde é possível pegar todas as informações necessárias ára qualquer passeio no Chile (inclusive mapas, telefones, pacotes, etc). Tem também a Pullman, onde é possível comprar passagens de ônibus para diversas regiões do país (lá comprei minha passagem para Isla Negra por algo como 15 reais!). E mais duas coisas interessantes que encontrei por lá: A Igreja da Santa Providência e a galeria de livros, com muitas livrarias e muitos sebos juntos. Sai de lá com 5 livros na mão e não gastei nem 50 reais!





domingo, 27 de fevereiro de 2011

Escolhendo um intercâmbio para aperfeiçoar o espanhol

Todos sabem que, hoje em dia, é necessário que os profissionais saibam ao menos uma língua extrangeira. E a maioria das pessoas começam pelo inglês, claro. E na primeira oportunidade fazem um intercambio para aprimorar o inglês. Eu não. Decidi aprimorar primeiro o espanhol, que é uma das (senão a mais) linguas mais faladas do mundo e é também a lingua oficial de 21 um países.

Sendo assim, decidi então fazer um intercâmbio de um mês durante o período das minhas férias. Optei pela agência de intercâmbio World Study, uma escolha não muito feliz, mas que no final, driblei os erros e fiz tudo dar certo. Como escola, optei pela rede da Enforex, que possuia parceria com escolas de lingua espanhola nos mais diversos paises. Sabendo que poderia fazer a mesma escola em dois paises, decidi então fazer o intercâmbio em dois paises, ficando duas semanas em cada um. A escolha de um país foi obvia, a outra nem tanto: Chile e Cuba. Não posso dizer com clareza porque escolhi esses lugares, a não ser pelo fato que sou um eterno curioso e que esses lugares me fascinavam por demais.

A seguir conto então como foi minha rotina nesses dois lugares.

Para contar a viagem do Chile, cada post terá o nome de uma estação de metrô, pois todos os pontos turisticos cheguei através desse meio de transporte. Aliaís, mais do que um meio de transporte, o metrô chileno é um museu fantastico. Abaixo seguem fotos de três estações de metro diferentes. Espero que gostem.



sábado, 9 de outubro de 2010

Darcy e a reinvenção da universidade brasileira

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Essa reportagem ganhou em primeiro lugar no Projeto Integrador de Jornalismo (2º Semestre) do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB) no 1º Semestre de 2010. Foi criada e editada por mim (Paulo Eduardo Lannes Souza), Gabrielle Garcia Soares e Ana Paula Almeida, todos alunos do IESB.
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Não é possível falar em Universidade de Brasília sem falar em Darcy Ribeiro. Esse é o nome do principal campus da UnB. Ele também foi um dos principais pensadores modernistas do Brasil e o principal responsável pela criação da UnB. Seus pensamentos marcaram época não apenas no Brasil, mas como em toda América Latina. Essa marca é tão forte que até hoje suas idéias são atuais, sendo bastante aclamado pelos estudantes e educadores da atualidade.

Notoriamente esquerdista, acabou por ser constantemente perseguido durante a ditadura militar no Brasil. Isso fez com que a chama de suas reformas universitárias fosse apagada à força. Desde a redemocratização brasileira, tem havido uma retomada desses pensamentos modernistas. Entre trancos e barrancos, o ressurgimento das idéias “darcyanas” tem trazido bons resultados, mas em uma nova realidade, elas tiveram que se reinventar.

A semente do saber
Na década de 60 surgiu no Brasil e na América Latina um movimento de intelectuais que analisava criticamente as universidades. Havia há muito tempo que as universidades precisavam ser reformadas e os pensadores modernos se reúnem para repensar um novo modelo educacional, gerando assim uma Reforma Universitária. Em meio a esse turbilhão, surge Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, dois dos grandes educadores da época.

Como no Brasil não havia universidades com um grande repertório de artistas, cientistas e educadores. Para Darcy, deveria nascer “universidades-semente”. Elas seriam livres para ousar e inventar novos modelos, sendo universidades experimentais, diferente das “universidades-fruto”. Que eram as antigas que estavam renascendo, como a Sorbonne, na França. Na cabeça de Darcy, funcionava a seguinte lógica: para que o fruto nasça, primeiro temos que semear a terra. Seguindo essa lógica, as “sementes” teria uma liberdade e ousadia que as “fruto” não tinham. No Brasil, até que existia a Universidade do Brasil, que seguia esse modelo, mas que não tinha uma ambição de se integrar com outras universidades, acabando por não espalhar suas idéias pelo mundo afora.

Muitos dos pensadores brasileiros estavam descontentes com a “caretice” dos modelos universitários. Darcy Ribeiro fazia parte desse grupo. Unindo sua experiência como pesquisador e sua raiva das velhas estruturas, passou a ousar no campo educacional, fazendo a seguinte pergunta: Universidade para quê?

Partindo deste questionamento, fez uma revisão do significado de universidade e como ela poderia ser aplicada no campo do saber e da vida. Assim, as universidades, que antes não passavam de um aglomerado de cursos superiores, deveriam se unir e começar a interagir uma com a outra. Então, Darcy propôs aos estudantes que montassem seus currículos, transformando-os em cidadãos que pudessem contribuir nos assuntos complexos da sociedade, que precisavam ser solucionados com as mais variadas habilidades. Ele acreditava na criação de cursos de integração cultural, obrigatórios para quem quisesse conhecer um pouco de tudo e ser um generalista nato. Simultaneamente, sugeria uma abertura permanente dos cursos, para que os já formados pudessem retornar e se atualizar.

Apesar de ser bastante utopista, Darcy não era idealista. “Idealista é aquele que pensa coisas que não tem contato com a realidade. Nas coisas de Darcy, havia muito contato com a realidade, a única diferença é que ele pensava à frente.” diz Cristovam Buarque, senador, renomado educador e amigo de Darcy Ribeiro.

“Faça-se a luz”

Ainda nos anos 60, Brasilia nasce. Sim, a cidade nasce no momento em que acontecem os movimentos de intelectuais no mundo. Sabendo que o presidente brasileiro da época, Juscelino Kubitschek, queria construir uma “cidade nova, com gente de mentalidade renovada, sem nenhum complexo de inferioridade colonial e sem nenhuma subserviência classista”, o modelo de universidade imaginada por Darcy Ribeiro e seus pensadores modernistas entrou como uma luva. Nesse contexto, a Universidade de Brasília nasceu.

Primeiramente, na UnB, o sistema de cátedra caiu por terra. Não haveria mais professores agindo como deuses. “O projeto de Darcy veio para quebrar essa hegemonia do saber, que era distante de um fazer. É um modelo pedagógico muito diferente.” Diz Cristina Madeira, atual coordenadora pedagógica da UnB. Assim surgiu a criação dos departamentos como unidade mínima acadêmica, ligando professores, funcionários e alunos. Nessa reforma surgiu também o sistema de créditos, que foi capaz de unir ensino e pesquisa e colocou a pós-graduação como atividade regular da universidade. Tamanha é a importância da pós nos dias de hoje, que se tornou pré-requisito para qualquer estudante, trazendo um novo nível para a educação brasileira.

Como pioneira da pós-graduação, os alunos, durante o curso, atuavam como instrutores e ajudavam os professores a darem aulas de graduação, criando assim um sistema eficiente e independente. “O curso de medicina não iniciou aqui, no plano piloto. Começou em sobradinho porque todo o trabalho, disso que a gente tem hoje como gestão de saúde comunitária, era o modelo de medicina da época.” diz Cristina, mostrando o quanto era importante a ligação da prática com a teoria aprendida. Essa integração levou o nome de método keller, responsável por formar uma ligação entre aluno e professor. Esse método trouxe como vantagem, a institucionalização da carreira de docente, o que não existia até essa época. “Ele mostra também como o ensino superior ajuda a formar a educação de ensino base, ajuda na economia, ajuda a sociedade e ajuda a cultura.” diz Cristovam Buarque.

Na estrutura física da universidade, havia sido construído o primeiro Instituto de Teologia Católica após a Revolução Francesa e a primeira Faculdade de Comunicação de Massa, que ligaria jornalismo, publicidade e propaganda, televisão, rádio e cinema. Numa época em que a televisão havia acabado de chegar ao país, essa nova estrutura se mostrou altamente revolucionária. Isso catapultou a UnB para um dos centros educacionais mais importantes do Brasil. Se Kubitschek queria que o progresso do país avançasse cinquenta anos em apenas cinco, Darcy mostrou como isso pode se tornar realidade.

Em Brasília, por toda a sua jovialidade, havia uma forte ligação entre a cidade e a universidade. Muitos dos professores haviam participado da construção da capital e da formação de uma sociedade brasiliense. No topo da lista se encontram Oscar Niemeyer (arquiteto), Athos Bulcão (artista plástico) e Vladimir Carvalho (cineasta). Em detrimento, houve uma preocupação com o dia a dia brasileiro, buscando soluções para as deficiências da sociedade e saindo do campo acadêmico. Assim, a cidade não seria responsável apenas por inovar no campo arquitetônico e no campo urbanístico, mas também no campo cultural, com a UnB. De fato, o sucesso se mostrou tão estrondoso que outras universidades (até as mais antigas e bem conceituadas) começaram a rever seus métodos de ensino e a se modificar, adequando-se a uma nova realidade.

A Mancha Negra

Durante a Guerra Fria, os estadunidenses mexeram com a cabeça dos brasileiros, influenciando-os em suas vidas. Como a base da vida é a educação, era de se esperar que houvesse uma reforma brusca no ensino da época. Surpreendentemente, os jovens e os estudantes se levantaram contra essas mudanças. Organizados pela UNE, não ficaram parados diante dessa tentativa de controle.

Na UnB, essas manifestações chamaram atenção pelo espaço físico da universidade, que, com o grande campus que havia, contribuiu para integrar os estudantes e fortalecer o movimento político estudantil. Assim, a UnB deflagrou sua primeira greve ainda no ano de sua inauguração, em junho de 1962. Isso viria a criar uma imagem negativa da UnB: a de que ela era um reduto de jovens marxistas.

Em 1964, o golpe militar se mostrou uma verdadeira surra para a universidade e seus projetos modernistas. Ela passou a ser vista como um símbolo de subversão que precisava ser combatido. Então, os militares começam a interferir na vida acadêmica, buscando suspeitos ligados ao comunismo. Chegaram a atear fogo no Instituto de Teologia e desmantelar a Faculdade de Comunicação de Massa.

Um ano depois, duzentos e dez professores se demitiram voluntariamente (cerca de 80% do corpo docente), num claro protesto à pressão exercida na universidade. Isso aconteceu em 1965. A universidade havia sido inaugurada há três anos e ainda estava em construção. Além de não ter gerado um tempo lucrativo, tudo que havia sido plantado se perdeu. A árvore que era a UnB havia se tornado estéril, entrando em uma crise profunda.

O período negro da universidade se afirmou quando chegaram os novos professores no ano seguinte. Antes, o corpo docente consistia na nata da ciência e das artes. Os novos professores estavam apenas preocupados com a renda salarial e com a manutenção da opressão militar no campus. Até o reitor não tinha nem idéia das propostas educacionais de Darcy Ribeiro. Novamente, os estudantes iniciam uma greve que fortaleceu ainda mais o movimento estudantil. Dessa vez, as tropas invadiram a UnB e vários estudantes foram presos no Teatro Nacional. Nunca alguém havia enlameado tanto a cultura que estava sendo construída na nova capital.

Em 1968, uma nova manifestação surge na UnB. E essa será capaz de mudar o rumo da história brasileira. De acordo com o filme “Barra 68” de Vladimir Carvalho, essa greve teria sido o estopim para a implementação do AI-5, responsável por vetar todos os direitos de cidadão existentes na época e fechar o Congresso Nacional. Iniciando uma onda de terror, muitos estudantes foram presos e pessoas desapareceram, outros optaram por se exilarem em no exterior ou simplesmente calaram suas opiniões. Honestino Guimarães, famoso líder estudantil da época, foi dado como desaparecido e a UNE se torna clandestina. E Darcy Ribeiro viu seus projetos desaparecem e a universidade se transformar em mais um centro de “paus-mandados”, acabando por se exilar, junto com muitos outros modernistas.

Com a queda da força estudantil e o exílio dos grandes reformadores, a UnB se transformou em um campo livre para os militares. Então o novo reitor, oficial da marinha, José Carlos Azevedo, inicia diversas construções no campus universitário, contando com o apoio financeiro do governo. Seguindo o discurso militar no qual as palavras-chaves eram “eficiência e progresso”, a UnB se viu em uma nova reforma universitária.

Nessa reforma, voltou a vigorar o sistema catedrático e foram criados institutos e departamentos fantoches, comandados pela mão de ferro dos militares. Mas, no final das contas, essa nova reforma não passou de uma farsa ao nascer com a liberdade castrada e com renovações de modelos a partir de conceitos já abandonados, por se mostrarem falsos e ineficientes. “(...) a UnB estava envolta por um clima de medo, professores vigiados (...). Estudantes intimidados, ameaçados em sua ânsia de indagar, (...) obrigados a conviver com delatores e agentes disfarçados dentro de salas de aula.”, conclui Beto Almeida, ex-aluno da UnB, no blog “Independência Sul Americana”.

Mas como nem tudo são espinhos, houve algumas medidas educacionais que funcionam até os dias de hoje. Como diz Cristina Madeira, “Há uma transição muito grande para a universidade e cria-se um projeto político educacional de departamento, modelo de Gestão coletiva que até hoje faz parte da gestão da Universidade. Nessa época, (...) o modelo da UnB se institucionalizou.”. As palavras de Cristina são confirmadas pelo filme “Barra 68” que mostra a universidade confusa, em meio a seu punhado de idéias e manifestações.

Com a ditadura, a UnB se afirma, deixando de ser “clandestina” e se tornando realmente uma universidade federal. Nessa época, nasceu a unificação do vestibular por região, limite no número de vagas, ingresso por classificação, curso básico que reúne várias disciplinas e a dispersão da graduação. E, até hoje, esses modelos se mantém.

Na UnB, mesmo diante dessas transformações, a falta de liberdade tornava o ambiente irrespirável. Em 1977, houve o último levante de alunos e professores, que (novamente) foram reprimidos. Vários líderes foram presos, sufocando de vez o movimento estudantil. Mas, Beto Almeida mostra que o espírito de luta dos estudantes não morreu: “Em maio de 1977 (...) vencem as teses de que a universidade não pode nem deve ser separada da sociedade, das lutas dos trabalhadores e que deveria servir ao povo brasileiro.”.

Renascimento do saber

Com a queda da ditadura militar em 1985, a redemocratização não atingiu apenas o plano político, levando mudanças também para os da cultura e educação. A realidade já é outra e os antigos planos de Darcy Ribeiro não caberiam mais. Não totalmente. “As bases que Darcy Ribeiro tinha da universidade a serviço da população, da liberdade, sem preconceitos e multicultural cabem. Mas tivemos que adaptar. A UnB era (...) muito nacional. Hoje não. Ela tem que ser internacionalizada.” diz o senador Cristovam Buarque.

Além de senador, Cristovam foi o primeiro reitor da UnB pós-ditatorial. Ao assumir a reitoria, entendeu que as idéias de Darcy ainda eram atuais, mas que precisavam ser reformuladas. E foi isso que ele fez. “A minha idéia é que a Universidade deve ser tridimensional, dividida por departamentos. Foi assim que o Darcy Ribeiro também pensou.” diz ele. Da mesma forma, afirma Beto Almeida ao dizer que “A semente da Universidade Necessária jamais morreu. (...) Várias gerações de estudantes resistimos, enfrentamos (...) para que o Brasil chegasse a ser o que é hoje, quando possui (...) instituições de ensino superior de cunho transformador, universidades necessárias”. Sobre as adaptações que ocorreram, Cristovam disse-nos que “A diferença é que defendo, também, que devem ser divididos por grupos temáticos (...). Nesses mesmos núcleos você põe pessoas de profissões diferentes trabalhando nos mesmos temas.”.

Dentre os principais projetos educacionais que foram adaptados, temos o de “ensino e pesquisa integrados” que se transformou no que hoje é o tripé da UnB. Nesse tripé, o ensino, pesquisa e a extensão se interligam, sendo complementares, mas também independentes. “O que a gente sabe que hoje é extensão cabia naquele projeto político pedagógico. (...) A formação do futuro profissional passava por uma experiência que era mais próxima da comunidade onde o profissional iria atuar.”, diz Cristina Madeira mostrando as semelhanças entre o projeto atual e o original de Darcy Ribeiro.

Com a recuperação da liberdade de expressão, foi possível identificar todos os erros e acertos que a ditadura militar produziu. “A Universidade Brasileira ficou com o mesmo número de alunos durante décadas. Havendo uma pressão muito grande para criar vagas. A solução foi o surgimento dos cursos particulares que (...) cresceram ao longo do tempo. Nisso, a crise das Universidades aumentou, ainda mais por falta de dinheiro, e por conta de greves e mais greves, fortalecendo cada vez mais o ensino particular. (...) A UnB está pagando um preço alto por isso.”, conclui o senador Cristovam.

Então, o que temos hoje é uma tentativa de retorno dos projetos “darcyanos”. Esse retorno está acontecendo de forma ousada, sendo aplicadas na universidade para serem experimentadas. Por exemplo, a UnB se tornou pioneira no sistema de PAS (programa de avaliação seriada) e no de cotas para negros e indígenas, que arrancaram elogios pelo Brasil afora.

Com o PAS, outro discurso de Darcy se torna realidade ao integrar a universidade com o ensino médio. Assim, os jovens passam, desde cedo, a conhecer as propostas de uma universidade e a pensar sobre seu futuro profissional.

No sistema de cotas, acontece a integração entre grupos étnicos (negros e indígenas) ao campo universitário. São lhes dado uma oportunidade que poderia nunca acontecer sem o tal sistema. Os indígenas, apesar de grandes dificuldades, poderão usufruir das últimas descobertas do mundo “moderno” e levar para a sua tribo, principalmente se for da área médica. “Como uma universidade criativa que se propõe a avançar algumas idéias, a inovação e criatividade é um dos princípios que rege a Universidade de Brasília. Existem as questões controvérsias (...), mas a UnB não se omite em fazer um enfrentamento, gerando um grupo de discussão, como num projeto de política pedagógica.”, conclui Cristina Madeira.

Um beijo para Darcy Ribeiro

Graças aos seus ideais educacionais, muito do Brasil e do mundo foi modificado para melhor. É mais que óbvio que uma pessoa como ele teria muitas homenagens pelo mundo afora. E realmente teve. Além de levar o nome do campus mais movimentado da UnB, é também nome no campus da Universidade Estadual de Montes Claros. No Rio de Janeiro, há uma universidade chamada Darcy Ribeiro (é a antiga Universidade Estadual do Norte Fluminense, idealizada pelo próprio Darcy). Por sua vida profissional, ganhou também o título de Doutor Honoris Causa nas universidades de Brasília, Montevidéu (Uruguai), Copenhague (Dinamarca), Venezuela Central (Venezuela) e Sorbonne (França). Por fim, em 1992, cinco anos antes de sua morte, ocupou uma cadeira na Academia de Letras Brasileiras.

Hoje, com o intuito de homenagear Darcy, está sendo construído um memorial no campus da UnB que levará o seu nome. Esse local já tinha sido planejado por Darcy e abrigará todo o seu acervo histórico. Além de ser um local de estudo, terá também um anfiteatro. Como ele mesmo dizia, será um local perfeito para o encontro de amigos e de namorados, sendo apelidado de “Beijódromo”.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cataratas de sonhos - Parte IV (Final)

Depois da usina, resolvi voltar às cataratas e fazer um passeio diferente chamado Macuco Safári. Nesse passeio, eu e mais um grupo de pessoas entramos num bote motorizado e com salva vidas, nos aproximamos das Cataratas. O guia pirado literalmente nos colocou embaixo daquele aguaceiro todo. Saia água até pelos ouvidos! Emocionante e congelante. Muito bom. Mas o que valeu mesmo foi o grupo. Tinham pessoas dos mais diversos países como Espanha, EUA, Coréia (não sei qual), Argentina e México. O mais engraçado é que ninguém sabia falar outra língua a não ser a sua própria e mesmo assim, todos se entenderam perfeitamente. Ou seja, posso ter ido viajar sozinho, mas não fiquei solitário por nenhum momento. Mas vale ressaltar, a galera do Macuco Safári brasileiro é bem mais sociável e heterogênea do que a dos Argentinos.


Como passeio final, fui ao marco das três fronteiras. Como havia dito antes, Foz fica no ponto de encontro entre Brasil, Paraguai e Argentina. Nesse local tem um mirante com um pequeno obelisco pintado de verde e amarelo. O mais legal é que desse mirante é possível ver o mirante paraguaio (pintado de vermelho e branco) e o mirante argentino (pintado de azul e branco), sendo os três separados pelo encontro dos rios Iguaçu e Paraná. Na época em que fui, estava sendo construído o que seria o mais alto mirante do Brasil, em uma torre com o topo em forma de óvni (se é que vocês me entendem).

Mas lá também tinha outra coisa que me chamou tanta atenção quanto o mirante: o mural contando a história do nascimento das cachoeiras de Iguaçu. É uma daquelas clássicas histórias indígenas de amor impossível, mas que merece ser contada. Dizia-se que uma serpente gigante (espécie de deus) chamada Mboi vivia no fundo do rio Iguaçu e, para que a mesma ficasse contente, a tribo Caiangue lhes ofereciam as mulheres mais belas da aldeia. No meio de toda essa história, a índia mais linda da aldeia, chamada Naipi, que seria a próxima oferenda a Mboi, foge com o seu amado Tarobá de canoa pelo rio. A serpente, enfurecida, criou uma fenda no rio de onde a água começou a cair, levando a canoa para o fundo do rio. Assim, Naibi se transformou na maior rocha que fica no meio da cascata e Taborá se transformou em uma árvore que fica no topo da cachoeira. Assim, os dois poderiam se olhar sempre, mas jamais poderia se tocar novamente e Mboi, ainda apaixonado pela índia se mantém no fundo do rio, a vigiando. Essa história não tem bases verídicas, mas demonstra bem o espírito do local. Emocionei.
Então assim termina a minha viagem, que no mínimo, se mostrou extasiante. As cachoeiras são imperdíveis, mas fazer todos esses passeios modificou a minha forma de ver o mundo para sempre. A mistura de povos é impressionante. As histórias locais são vivas e bem preservadas. E, até hoje, acordo ouvindo o poderoso som das cachoeiras caindo incansavelmente sobre Naipi e suas rochas vizinhas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cataratas de sonhos - Parte III

Depois de ter visto aquilo tudo, tomei uma decisão. Iria fazer TODOS os passeios possíveis naquele lugar. Já vi que não aconteceria mais uma ida ao cassino e que mesmo assim voltaria com os bolsos pesados (de dívidas, é óbvio). Então assim, parti para o Parque Nacional Iguazú, no “lado argentino” das Cataratas.

Estava com medo de achar repetitivo, mas não. Eu vi as Cachoeiras por outro lado, ou melhor, por CIMA delas. Eu não conseguia ver o fundo das cataratas em meio às névoas eternas causadas pelo vapor d’água, mas conseguia sentir toda intensidade daquele rio descendo por água abaixo (literalmente).

As passarelas argentinas ainda possuíam histórias. Além de serem (beeeeem) mais compridas que as brasileiras, muitas delas já foram devastadas pelas enchentes do passado, sendo que algumas já chegaram a provocar mortes! Mucho Loco!

Aproveitando que já tinha conhecido aquelas águas, resolvi conhecer a origem delas: a Usina Binacional Itaipu. Eu já sabia que a construção daquela que já foi a maior usina hidrelétrica do mundo havia modificado completamente o curso das águas da região. Inclusive, há certo saudosismo com relação às Sete Quedas, que desapareceram com a tal usina. Não tem como dizer que a mudança foi horrível para a região, mas não dá para esquecer os estragos feitos na natureza local.

Apesar de tudo, a Itaipu tem um programa bastante inovador. Para começar, a usina é parte de um contrato que a divide entre o Brasil e o Paraguai. Tudo lá é dividido mesmo, inclusive os trabalhadores (50% são brasileiros e 50% são paraguaios), mas o mais curioso é que a região em volta da usina não pertence a NENHUM país. É como se fosse uma zona neutra e internacional. Outra curiosidade é que a cada trabalhador que é contratado lá, deve plantar uma árvore, com direito a plaquinha com nome e tudo mais. Muito show.

Chegando naquele monumento de concreto, podia escolher entre dois tipos de visita, a turística e a técnica. Eu iria fazer a técnica, mas soube que era extremamente profissional (e eu realmente passo longe da engenharia) e demorado, então fiquei com a turística, e não me arrependi. Passamos por cima, passamos por dentro e tudo mais. Tudo muito grande e incrivelmente calmo.

Aquelas águas paradas chegam a ser assustadoras. Mas o interessante da usina é o Canal da Piracema. É por lá que passam todas as espécies de animais marinhos, mostrando que a usina estava sim, se preocupando com a natureza local. Muito bom. O passeio valeu demais!

domingo, 8 de agosto de 2010

Cataratas de sonhos - Parte II

Depois, para fazer um passeio completo e especializado, contrato uma empresa pra me carregar e me explicar tudo. Como era fora de época de turismo, ficou uma Combi inteira a minha disposição e um guia particular. Bom demais. Primeiro passei no famoso parque de aves e realmente foi magnífico. O diferencial é que você entra na jaula onde se encontram. E elas são espaçosas e bastante arborizadas. O espetáculo foi exótico. Flamingos rosados se paquerando em espelhos (falava-se que os espelhos serviam para multiplicá-los e assim lhes dar mais segurança). Macucos andavam por todos os lados. Eles são donos dos ovos mais lindos do mundo. Tais ovos que eu NÃO vi em nenhum lugar, mas dizem que eles são de um roxo brilhante. Devem ser, né? Tucanos malditos comendo pedaços da minha bermuda. Araras lindas com aquelas garras que deixaram marcas eternas no meu braço. Cobras esguias e linguarudas rodopiando meu corpo. Foi realmente divertido. E um pouco assustador.
 
Depois de tantos animais, partimos para o grande objetivo da viagem, ver as famosas e ditas como as mais lindas cataratas do mundo: as Cataratas do Iguaçu. Chegando ao Parque Nacional do Iguaçu, percebi algo peculiar. O hotel resort das Cataratas fica lá dentro. Como assim? Uma hospedagem particular num território federal e Patrimônio Natural da UNESCO? Bem ou mal, o prédio ao menos era bonito e integrava bem com o local.
Vamos adiante. Começo a descer as longas passarelas e escadas no meio do mato e nada de água. Só o barulho bem ao fundo. Até que um quati começa a pular de um lado pro outro, em volta de mim. Se eu achava que não teria que lidar com mais nenhum animal, me enganei profundamente. Aquele bichano bonitinho se mostrou uma verdadeira peste enquanto tentava saquear minha mochila. E claro, o guia só rindo e tirando fotos. O que mais ele poderia fazer?
Mas graças ao pequeno mascote do parque, tive uma das imagens mais bonitas que já havia tido até o momento. Ao tentar puxar minha mochila pro chão, me agachei para me esquivar dele e assim pude ver pela primeira vez as cataratas, numa posição que nunca tinha visto em fotos. Era como se eu tivesse acabado de encontrar o Eldorado! Parecia intocável pelo homem, lindo e perfeito como deveria ser.

Chegando ao final das passarelas, estava completamente ensopado pelos respingos da cachoeira, surdo pelo som das forças das águas, tremendo pelo frio das águas e com os olhos brilhando diante tantos arco-íris que já tinha visto. Nem a Parada Gay tinha tantas cores juntas e misturadas.
E a quantidade de cachoeiras? É como se a água do mundo inteiro estivesse desembocando naquele lugar! Aquele barulho jamais sairá da minha memória. Nunca pensei que seria tão magnífico.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Cataratas de sonhos - Parte I

Foz do Iguaçu. A beleza das cataratas e a história do local são tão subestimadas que torna a viagem de qualquer um, no mínimo, inesperada. E essa foi a primeira vez que viajei completamente sozinho. Lá me hospedaria na casa de familiares que não conhecem nem meus pais, mas que estavam dispostos a conhecer um carioca da família, tão incomum entre nós. Lá encontrei os mais diversos tipos de pessoas, ainda mais pela cidade estar no ponto de encontro entre três países (Brasil, Paraguai e Argentina), o que deixou tudo mais divertido e exótico.

Minhas surpresas já começaram no aeroporto. Mesmo pequeno e localizado em uma cidade com menos de 400 mil habitantes, é um dos aeroportos mais movimentados do Brasil com vôos que vêm de todos os continentes do mundo. Mas também a sua posição geográfica não deixa a desejar: a cidade fica exatamente no centro da América do Sul! E claro, como não podia deixar de ser, ao sair do avião e entrar no aeroporto, o que tinha lá esperando pelos passageiros? Uma mulher fantasiada e seminua sambando ao som de um moreno rústico com jeitão de índio urbano. Cena cômica para os brasileiros, linda para os estrangeiros. Faz parte.

Meio paradona, a cidade conquista mais por sua beleza natural do que urbana. Apesar das ruas limpas e largas, não é de ter muita agitação (muito menos noturna). Na verdade, a cidade que faz sucesso mesmo é a Ciudad Del Este, no Paraguai. A travessia de um país para o outro acontece em uma ponte que pode ser usada tanto para carros quanto para pedestres. Apesar de curta, foi lá que vi as cenas mais engraçadas da viagem. Primeiro, ao olhar pelo Rio abaixo, é possível perceber barquinhos improvisados e pessoas com mochilões tentando atravessar o rio. Até há algum movimento da polícia, mas (como sempre) não é o suficiente para conter a galera. Na própria ponte é possível perceber mulheres levando bolsas gigantescas na cabeça (como se fossem baianas, só que provavelmente o peso da carga era BEM maior) e homens levando galinhas dentro das mochilas, as quais você só vê as cabeças e seus olhares espantados diante de toda aquela correria. Passado a ponte, o que você encontra é uma feira gigantesca, só que ao invés de barracas e camelódromos, são prédios inteiros usados para isso. Ao lado de um MP4 na marca “Sonya” e de um desodorante muito suspeito chamado “Roxana” você vê candelabros clássicos e pianos de cauda. É um barato (nem sempre, financeiramente falando). Saindo a noite, depois da parada obrigatória no Duty Free externo e gigantesco (o único que já vi sem ter um aeroporto por perto) vou ao único local digno de lotar minha noite inteira: o cassino Iguazú. Adoro toda aquela ostentação e a capacidade de entrar, ganhar dinheiro e sair com menos do que entrou. Isso sem contar aquela falta de coragem de jogar (pra perder, obviamente) um poker com aquelas pessoas extremamente sérias e assustadoras (e velhas, diga se de passagem).